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Novas esculturas
Publicado em A Terra dos Maracujás
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Geometria
Lancei-me ao rio. Cobriu-me a água translúcida que deixava ver as mãos, mas não os pés. Envolvido pelo frio desse leito, deixei-me conduzir por seus braços, que me lavaram o corpo e tornaram diverso o eu que emergiu dali, pois a corrente libertou-me dos vidros que me ajustavam o mundo à retina.
Acostumado que estava eu a tais olhos, a bruma dos contornos me estranhava. Desci então ao fundo, buscando desencavar minha vista perdida entre areia, raízes e folhas mortas. O mergulho inútil era um rito fúnebre para um modo de ver que me escapava. Isso eu não percebia, preso que estava na peça que a esperança prega aos cegos: eu tateava a esmo no local em que eles se afogaram, embora devesse imaginar que já teriam navegado para além do meu alcance.
Quando o siso superou a esperança, uma antiga memória me lembrou de que o indefinido das coisas nunca havia cessado de ali estar, embora escondido pelos vidros encantados que me mostravam as coisas como os outros achavam que eu deveria ver. Porém, no meu mundo, o sol filtrado pelos ramos nunca deixou de ser um enxame de vaga-lumes impressionistas.
Vivendo o mito da caverna ao contrário, redescobri que minha verdade não era a daquelas silhuetas delineadas como as folhas de um quadro de Rousseau, pois o natural de meus olhos era perceber o movimento das copas ao vento como um grande pulsar e não como a soma dos pequenos movimentos de linhas que eu não vejo.
Há quem insista em definir os limites, mas as fronteiras não são partes das coisas. São apenas uma forma de organizar o que vemos, embora no fundo (do rio?) todas as coisas se encontrem misturadas. E é por isso que o borrão, e não o triângulo, é a figura essencial da minha geometria.
Publicado em A Terra dos Maracujás
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Transparência
Às vezes me invade um desejo intenso de ser transparente. Esse é um sentimento raro, já que o normal é eu ter vontade de passar despercebido, mais curioso em olhar do que em ser visto. Curiosidade de ser visto, talvez seja esse o melhor nome para definir o que me invade nessas horas. O transbordamento da vontade de ser olhado por alguém.
Não por qualquer alguém, é claro. Esse sentimento me assalta apenas frente a certas pessoas muito particulares. Ou melhor, apenas perante certas facetas de algumas pessoas.
Sem aviso prévio, atravessa-me essa vontade de ser reconhecido, de ser aceito e, naquele limite extremo que beira o milagre, de ser amado. Olhando em perspectiva, imagino reconhecer o caminho dessa inundação.
Sei que o dilúvio é iminente quando me abisma perceber que uma pessoa reverbera o que me compõe no íntimo. Há sempre quem nos vê a superfície: o carisma, a inteligência ou a falta de tudo isso que só aprendemos pelo olhar dos outros. Essas dimensões que nos estranham, mais do que nos entranham.
Alguns poucos olhares captam de nós uma fagulha diversa, algo daquilo em que nos reconhecemos de fato, ainda que por alguma forma de miopia interna. Esse mirar do outro nos desnuda e muitas vezes reagimos com a vergonha que teríamos caso descobríssemos que alguém nos espia do prédio em frente. Mas em vez de olhar por uma luneta, que nos revela inteiros mas distantes, essa pessoa nos observa por frestas que nos cortam como uma tela de Fontana.
[Tríptico]
O que se mostra é sempre pouco. Um lampejo, um reflexo, um pequeno fragmento que escapa e vem à luz. Quando a mirada que me devassa se afigura afetuosa, sou às vezes tomado pela ideia semidelirante de que esse olhar me desnudaria com ternura.
Neste mundo em que vestimos camadas sobrepostas de máscaras, a possibilidade de viver sem elas é vertiginosa. Fico então dividido entre o desejo de me tornar transparente e o medo da fragilidade que isso traz. E assim revelo pouco, como quem vai à praia de sapatos, mas tira os óculos de sol.
Esse pouco que se mostra pode ser o início de uma dança de aberturas ritmadas, pois o olhar sensível às vezes é mostra de que o observador também quer se sentir mirado. E é aí que me invade vertiginosamente o desejo de transparência.
Ocorre que as máscaras não são escudos. Retirá-las não é apenas revelar a pele que se esconde por baixo dos tecidos, mas trazer à tona a própria carne. E quem é que se encanta por um duodeno ou por um baço? O olhar do outro não nos retira somente as armaduras, mas ilumina a reserva selvagem em que habita nossa frágil diversidade.
Eu, que tenho olhos curiosos de ver, cultivo entranhas com curiosidade de serem vistas. E enquanto a pele se mantém opaca, eu desato a falar das coisas que sinto, pra que você me enxergue naquilo que eu digo. Ou melhor, nas frestas das minhas palavras, no ritmo peculiar em que respiro, no encontro improvável das perspectivas. Ao divisar em mim o que eu sou incapaz de enxergar, e que apenas tateio, você me oferece um espelho que desvela uma realidade em que me aninho, um mundo no qual passeio pelas trilhas labirínticas em que me posso encontrar.
Com algumas raras pessoas, o meu olhar se enlaça de modo que eu não posso mais ver as coisas sem passar pelos olhos delas. E penso que o amor é o tecido que esses olhares tramam.
Publicado em A Terra dos Maracujás
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Espera
A hora do encontro é feita
tanto de ação como de espera,
e tu sabes que alguns lábios,
preferem aos beijos roubados,
aqueles colhidos maduros,
entre nuvens e flores de ipê.
O beijo que a boca não quis
na palma ficou guardado
à espera do desejo
que teus olhos procuravam
esquivando-se dos meus.
Se vier a paixão a florir,
leva tua mão à boca,
pra que o beijo nela contido
deixe a escala dos dedos
e chegue ao fim do caminho.
Se ela, porém, restar oculta,
esgotada em teu sorriso,
serei eu feliz de ter visto,
brilhar na sombra da lua
o risco de estrelas cadentes
que apontam a trilha sua.
Publicado em A Terra dos Maracujás, Primavera
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Amoras noturnas
As amoras se escondem na noite.
Elas se misturam entre as sombras dos galhos e os meandros das folhas e não se entregam a dedos tateantes.
Publicado em O Silêncio
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Primavera em prosa
A primavera desabou no mundo com tambores de tempestade.
O vento úmido roubou as flores do ipê para fazer malabarismos e depois abandoná-las sobre a grama que aos poucos retoma o verde.
A lua de novo ganhou um biombo de nuvens para esconder sua nudez amarela e cheia.
E gotas pesadas desenham caminhos verticais no vidro da janela.
Publicado em A Terra dos Maracujás, Primavera
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